Porque, como diria o velhinho barbudo, os dentistas fazem sua história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente...
Quem iria imaginar que um dia viveríamos um mundo em que um robô estaria constantemente fazendo busca de publicações científicas a partir de palavras definidas por nós e nos enviaria por e-mail sempre que fossem publicadas? Sim, isso existe e é algo muito simples de aprender. Vamos lá.
1) O primeiro passo é acessar a página do Google Acadêmico.
2) Em seguida, digitar as palavras com as quais você deseja fazer a busca de artigos, teses e dissertações. Valem as mesmas regras para a busca tradicional do Google: expressões entre aspas resultam na busca daquela combinação exata de palavras:
3) O resultado é tudo o que o Google encontra com aquelas palavras que já tenha sido publicado até aquele momento. Só que não queremos apenas isso. Queremos receber, daqui pra frente, tudo o que for produzido com aqueles termos. Para isso, devemos clicar em "Criar alerta".
4) Na tela seguinte, além de definir as palavras da busca, você deve digitar o email para o qual as publicações devem ser enviadas.
5) Você vai começar a receber os artigos regularmente. Assim:
6) É importante salientar que nem sempre você receberá algo de seu interesse. As palavras podem até constar na publicação e o tema central ser outro. Mas não é algo sensacional?
7) A qualquer momento você pode cancelar o Alerta, clicando no link do final do e-mail. Pode também alterar a combinação de palavras.
Essa é uma ferramenta simples e utilíssima. Obviamente, não vai jamais substituir o seu senso crítico para julgar o que é relevante e o que não é. O que faz sentido e o que deve ser desprezado. Até onde eu sei, o Google ainda não desenvolveu nada para isso.
Hoje descobri uma publicação da ANS muito interessante: o Mapa Assistencial, que apresenta dados econômico-financeiros anuais por operadoras de planos de saúde. A edição de 2014 pode ser baixada aqui.
Um dado interessante que pode ser obtido nessa publicação:
No segundo semestre de 2012, foram realizadas 4.368.079 consultas odontológicas iniciais no setor de saúde suplementar. Por estes procedimentos as operadoras de planos desembolsaram R$ 54.339.479,34. Isto significa dizer que foi pago em média R$ 12,44 por consulta inicial.
No segundo semestre de 2013, foram realizadas 6.054.125 consultas odontológicas, resultando em uma despesa de R$75.557.788,59. Significa dizer que, passado um ano, a média do valor pago por consulta inicial foi R$ 12,48. Quatro centavos a mais. A variação do IPCA de dezembro de 2012 a dezembro de 2013 foi 5,8%. Ou seja, o valor, se reajustado por esse índice, seria R$13,16. Que continua sendo muito baixo.
Só para lembrar, em 2013, a Odontologia suplementar ultrapassou o marco de 20 milhões de beneficiários de planos exclusivamente odontológicos. Um aumento de 7% em relação ao ano anterior.
Existe um artigo muito bom de Carlo Henrique Goretti Zanetti , José Antônio Abreu de Oliveira e Maria Helena Magalhães de Mendonça sobre a divisão do trabalho odontológico. Na época, quando José Antônio pediu minha opinião, palpitei, dentre outras coisas, que ainda não era o momento para usar o conceito de desprofissionalização da Odontologia. Talvez hoje tenha chegado a hora.
Retiro uma citação do artigo:
Nessa odontologia se conforma, inflacionada, uma legião de CDs praticantes que milita numa zona de exercício profissional que, por sua nebulosa intransparência (quanto às suas perspectivas futuras) e na falta de nome melhor, podemos denominar de zona cinzenta da desprofissionalização. Nessa zona, não há cooperação, só competição, inclusive competição interprofissional direta entre dentistas e técnicos de saúde bucal. (ZANETTI; OLIVEIRA; MENDONCA, 2012, p. 210)
Pois foi esse artigo que me veio à mente quando assisti à reportagem que demonstrava que dentistas formados também estão instalando “aparelhos de enfeite”, para poder concorrer com camelôs. Cliquem aqui e vejam a reportagem na íntegra, pois a transcrição não está em sua totalidade.
Eu já tinha comentado em post anterior sobre a tendência de concentração do setor de planos exclusivamente odontológicos. Na época, o que me chamou a atenção é que, mesmo os números oficiais da ANS apontando esta tendência, continuava-se falando em "mercado altamente competitivo". Ok, o índice que mede a concentração no setor econômico (Herfindahl-Hirschman Index - HHI) apontava isto, mas o movimento de concentração era evidente.
Hoje eu estava mais uma vez fazendo pesquisas na página da ANS e encontrei a última edição da Foco Saúde Suplementar - que é de dezembro de 2012. Aqui não há meias palavras: afirma-se que a concentração no segmento de operadoras exclusivamente odontológicas aumentou. O HHI, que já foi de 3,1 em 2001 e chegou a 6,1 em 2009, atingiu a marca de 10,9 em 2012. Ou seja, já está na faixa denominada "moderadamente concentrado".
Acredito que todos os dentistas já devem alguma vez ter ouvido a frase "a OMS recomenda a proporção de 1 dentista para cada 1.500 habitantes". Mas o que ela quer dizer com isso? Que se a proporção 1:9.000 é ruim, então a proporção 1: 167 é boa? Não faz muito sentido.
Paulo Capel Narvai escreveu um artigo para o Jornal do Site dizendo que este dado seria uma lenda. Uma espécie de hoax que teria se iniciado antes mesmo da popularização da internet. Diz ele:
"Não basta para o enfrentamento da atual política de formação de recursos humanos em saúde — aí incluídos os recursos humanos odontológicos —, a enfadonha citação de que "a Organização Mundial da Saúde recomenda 1 dentista para 1.500 habitantes." (Há variantes como 1/1.000 ou 1/2.000). Há pelo menos dois erros nisso: em primeiro lugar, a OMS não recomenda coisa alguma. Em algum momento alguém deve ter lido mal em algum lugar, citou erroneamente a OMS e, a partir daí, tem havido uma repetição mecânica e acrítica dessa proporção. Jamais encontrei a referência bibliográfica nos artigos que mencionam a tal proporção. Nos documentos da OMS, aos quais tive acesso, nunca li nada sobre o assunto. Até que algum pesquisador desvende esse mistério, pode-se concluir que trata-se de pura lenda".
Confesso que há muito tempo não tenho sossego, procurando as origens da lenda, pois encontrei publicações até de 1979 com essa informação. Até que me bateu a ideia de procurar onde a coisa começou (ou não) : a própria OMS.
Achei um comunicado da organização que esclarece a coisa toda:
"A Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Organização Pan-americana da Saúde (OPAS) não recomendam nem estabelecem taxas ideais de número de leitos por habitante a serem seguidas e cumpridas por seus países-membros. Tampouco definem e recomendam o número desejável de médicos, enfermeiros e dentistas por habitante. Não existe, ainda, orientação sobre a duração ideal das consultas médicas ou um número desejável de pacientes atendidos por hora." Grifo meu.
Então, como tudo aconteceu?
No longínquo ano de 1972 ocorreu a III Reunião Especial de Ministros de Saúde das Américas, que resultou no Plano Decenal de Saúde para as Américas. Os ministros ali reunidos combinaram a meta de alcançar "8 médicos, 2 odontólogos, 4,5 enfermeiros e 14,5 auxiliares de enfermaria para cada 10.000 habitantes". Só isso. E o valor nem corresponde à versão consagrada na literaura...
O documento é fruto de um evento da OPAS-OMS, mas não é uma resolução oficial da organização, que diria quanto dentistas deveriam existir pra cada tantos mil habitantes.
Ate porque, em 1972 a realidade era outra, não é? Bem aqui um artigo do Vitor Pinto de 1983, que não me deixa mentir.
O link para o esclarecimento da OMS é este, mas você pode ler abaixo: